Gerontocracia na Era da Inteligência Artificial: quem decide o futuro?



Há reflexões que são apenas interessantes. Outras são necessárias. E algumas tornam-se urgentes.

Esta é uma delas. Gosto de explorar ideias e de refletir, assistida pela inteligência artificial, e quero partilhar contigo, o resultado de uma destas reflexões. 

Ver o mundo hoje, com o olhar de quem estudou Relações Internacionais (RI), é assistir ao desmantelamento de uma civilização... sinto o arrepio de quem vê cair os tratados e a ética global, como que se tudo o aprendi sobre a construção da paz estivesse a ser queimado e o fumo não deixasse ver nada com clareza.

Talvez tenha sido esta espinha que está cravada na garganta, que me cria desconforto, que me faz sentir frustração, ansiedade, tristeza e dor e que me impeliu a questionar, a refletir, a tentar perceber as forças motrizes desta trajetória de declínio e destruição.

Então, vem daí, mergulhar num tema que me tem assolado os pensamentos nos últimos tempos.

Já deves ter reparado que estamos a viver um fenómeno inédito na história da humanidade: uma gerontocracia global num mundo que se move à velocidade da inteligência artificial. Nunca a humanidade viveu tanto tempo. E nunca o mundo mudou tão depressa.

O paradoxo é simultaneamente fascinante e inquietante. Celebramos a longevidade como uma das maiores vitórias da ciência moderna, e com razão, mas quando essa longevidade se cristaliza em posições de poder quase absoluto, surge uma pergunta difícil: quem deve decidir o futuro?

Quando o futuro é decidido por quem tem mais passado do que tempo pela frente, a tensão entre experiência e renovação torna-se inevitável. E não estou a falar tanto da idade individual, mas do padrão estrutural de concentração de poder em gerações muito mais velhas.

E atenção: Esta reflexão não é um manifesto contra a longevidade, nem uma exaltação cega da juventude; é, antes, um convite a um debate interno urgente: como podemos harmonizar o capital da experiência com a necessidade vital de renovação geracional? 

Sem ter a pretensão de ser um diagnóstico fechado, apresento algumas ideias para abrir o debate:

1. O vício do poder e a psicologia do “fim da linha”

O poder prolongado tem efeitos psicológicos profundos. Líderes que permanecem décadas no centro das decisões globais acabam frequentemente por desenvolver uma relação quase identitária com o poder. O poder deixa de ser uma função e passa a ser uma extensão do próprio ego.

Existe também uma dimensão temporal raramente discutida: o horizonte de vida pessoal.

Um líder que já entrou na última etapa da vida pode sentir que já não tem muito a perder em termos de longevidade pessoal, mas ainda tem tudo a ganhar em termos de legado histórico. Essa lógica pode levar a decisões orientadas mais para a construção de um lugar na história do que para a sustentabilidade do futuro.

Surge então um problema clássico da teoria dos incentivos: Não sentir na pele o impacto das suas decisões.

Decisões sobre alterações climáticas, inteligência artificial ou equilíbrio geopolítico terão consequências durante décadas ou séculos. Mas quem as toma pode já não estar cá para viver essas consequências.

Para as novas gerações, o futuro é vida. Para alguns decisores, pode tornar-se apenas abstração.

Com o passar dos anos e com décadas de poder acumulado, há ainda outro fenómeno: o isolamento cognitivo. O círculo de conselheiros estreita-se, a dissidência diminui e forma-se uma bolha de confirmação permanente. O poder, como muitas vezes se diz, comporta-se como uma droga, reforçando a sensação de controlo enquanto reduz a empatia e a capacidade de adaptação.

2. A biologia não negocia

É importante afirmar de forma clara: idade não é sinónimo de incompetência. Existem pessoas extraordinariamente lúcidas e criativas aos 80 ou 90 anos.

Também sabemos que a biologia é uma realidade e que a probabilidade de declínio cognitivo aumenta com a idade. Problemas de memória, rigidez mental ou diminuição da capacidade de processamento tornam-se estatisticamente mais frequentes.

Em contextos normais isto é apenas parte do ciclo da vida. Em contextos de poder global, pode tornar-se um risco sistémico.

Num cenário de crise nuclear, cibernética ou financeira, decisões críticas podem ter de ser tomadas em minutos. A agilidade cognitiva deixa então de ser apenas uma virtude, torna-se uma questão de segurança global.

E a pensar na segurança, certas profissões, exigem exames médicos rigorosos (por exemplo, para ser piloto de aviões comerciais). 

3. A questão dos limites de idade

A maioria das democracias estabelece idades mínimas para votar ou para exercer cargos políticos. A lógica é simples: é necessário um certo grau de maturidade para assumir responsabilidades coletivas.

Mas quase nenhum sistema estabelece idades máximas.

Isso levanta uma pergunta inevitável: se reconhecemos limites mínimos, por que recusamos discutir limites máximos?

Não existe uma resposta simples.

Talvez a solução não esteja apenas em limites cronológicos, mas em mecanismos institucionais mais sofisticados: avaliações independentes de capacidade cognitiva, mandatos mais curtos, ou restrições à reeleição em idades avançadas.

Quem representa o futuro?

Talvez a pergunta mais importante seja outra.

Quem representa politicamente o tempo longo?

Vivemos num mundo em que decisões tomadas hoje tem repercussões no planeta em 2050 ou 2100. As gerações que irão viver esse futuro têm ainda pouca representação real nas estruturas de poder.

Assola-me a imagem de um 'lar de idosos' institucionalizado, em que as confortáveis poltronas do poder incluem botões nucleares. Para mim, como licenciada em RI, esta é uma visão distópica; é a representação do colapso da Realpolitik.

E esta imagem persegue-me porque estudei o Estado como um ator racional. 

Só que agora, em vez de decisões racionais, sinto que alguns líderes mundiais (que tem um ponto em comum, o facto de já terem atingido o crepúsculo da vida), parecem perder a noção de proporcionalidade e responsabilidade transgeracional

Este pesadelo de ver a ordem mundial transformada num sistema fechado, gerido por mentes viciadas no comando, que já não vão sentir na pele como será viver no século XXII. 

Talvez seja uma imagem mental provocadora, mas que coloca o problema no centro do debate: como garantir que o poder político permanece ligado ao tempo que ainda está por vir?

Contraponto: 

Mais logo vou ser júri numa atividade de aceleração de projetos da iniciativa Fator C’Idade, que me mostra precisamente o outro lado do debate sobre envelhecimento e poder: em vez de olhar para a longevidade apenas como risco político ou demográfico, procura transformá-la em ativo social e económico

Esta iniciativa promove programas de capacitação, mentoria e incubação de projetos, incentivando pessoas com mais de 50 anos, em colaboração com outras gerações, a desenvolver soluções inovadoras para desafios como o envelhecimento ativo, a inclusão e a economia da longevidade. 

Assim, demonstra que a experiência acumulada pode ser uma fonte poderosa de inovação social quando colocada em contextos de colaboração intergeracional e de criação de impacto nas comunidades.

Neste contexto, iniciativas como a Fator C'Idade ajudam também a clarificar um ponto essencial da reflexão apresentada neste artigo. 

O debate aqui proposto não é sobre séniores enquanto grupo social, nem sobre o enorme valor da experiência acumulada, algo que programas como o Fator C’Idade demonstram ao promover empreendedorismo, inovação e colaboração intergeracional a partir da longevidade. 

A questão levantada é outra e diz respeito à concentração prolongada de poder político em lideranças muito longevas, num contexto em que as decisões impactam um futuro que se estende muito para além do seu próprio horizonte temporal. 

O papel ativo das pessoas mais velhas na sociedade, pode e deve ser valorizado mas sinto que chegou a uma altura que me obriga a refletir sobre como equilibrar experiência e renovação quando está em causa a governação do futuro coletivo.

Precisamos de líderes capazes de imaginar o ano 2100. 

Não estou a falar de imaginar como na ficção científica... estou antes a falar de um mundo imaginado em que os meus (futuros) netos possam viver (bem).

Para mim governar é, sobretudo, proteger o futuro.




Artigo em coautoria entre Luísa Bernardes, ChatGPT e Gemini.

Comentários

  1. Por certo o futuro vai ser diferente dos tempos que vivemos. Acho que nos adaptamos sempre. Mas vão continuar a existir locais e momentos no tempo que vão ser sacrificados temporariamente. E será um infortúnio para as pessoas que lá viverem.
    É uma boa questão essa do limite de idade para exercer política mas por outro lado a experiência vale muito nesse campo.
    Nunca consigo chegar a uma conclusão sobre estas coisas. O comportamento humano é imprevisível e irracional (racionalmente irracional).
    Bem escrevi e escrevi e não disse nada. Bons olhos te leiam outra vez. Já não aparecias há muito.

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    1. É mesmo difícil chegar a uma conclusão Caracol. Concordo que estabelecer um limite de idade seria difícil... e garantir avaliações verdadeiramente isentas também é uma quimera, ainda que na prática já o fazemos e para coisas bem mais comezinhas, como por exemplo exames médicos para poder continuar a conduzir depois de uma certa idade. Depois pergunto-me: se confiamos nesse critério para a segurança rodoviária, por que não para decisões de Estado?

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